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08 agosto 2008

A prepotente vergonha da medicina


Em conversa sobre uma palestra que havia acabado de ser proferida em meu laboratório, um dos médicos pesquisadores fez um comentário que me chamou muito a atenção. Ele falava de como alguns anos após uma cirurgia de safena (quando se retira uma veia da perna e a coloca no lugar de uma artéria entupida), a veia substituta oclui, ou seja, se fecha. “É vexativo quando após dez anos da operação da safena ela se fecha.”

Ouvir isto faz parecer que a medicina já esta num estágio tão avançado que pode se gabar de sentir vergonha por não conseguir algum resultado desejado.

Que medicina super-avançada é esta que precisa retirar uma veia do corpo do próprio paciente e colocá-la no local desejado. Bom, esse simplesmente é o caminho mais lógico, direto e óbvio para resolver o problema. Ou seja, nada muito sofisticado. E assim é a maioria dos tratamentos usados hoje em dia. Muitas bulas eu já li e li o seguinte em muitas: “o mecanismo de ação deste composto não está totalmente descrito”. Tomamos remédios no escuro? Em parte sim. Nestes casos sabemos que na maioria das pessoas não faz mal e resolve o problema. Então vamos usando, quando soubermos o mecanismo de funcionamento, ótimo, mas enquanto não fizer mal, continuemos tomando. E nada mais correto.

Mas vexativo? Vergonhoso? Vergonha de que? Vergonha de perder para a natureza? De se sentir incapaz perante a complexidade da fisiologia humana?

A medicina tem que se sofisticar muito ainda para poder começar a sentir vergonha de alguma coisa.

01 maio 2008

Contaminação de medicação já matou 81. Má fé da China, negligência dos E.U.A.


Heparina, uma droga que serve para afinar o sangue, e é amplamente usada na medicina, principalmente por quem faz hemodiálise, é a pivô desta história macabra.

81 americanos já morreram devido a lotes da droga que estavam contaminados. Acidente? Impossível, pelo número de lotes contaminados (quase um terço). Portanto o FDA (departamento que regula alimentos e medicações nos E.U.A.) já trabalha com a hipótese de contaminação intencional. Parece que a substância contaminante é um equivalente da heparina, só que 100 vezes mais barata.

Subindo na cadeia de distribuição e produção da heparina, chega-se a uma subsidiária chinesa da empresa americana que fabrica a droga. E na busca por descobrir a fonte da contaminação a FDA foi barrada pelo governo chinês: “Se quiserem entrar em nossas fábricas, iremos entrar nas suas também!” é o que dizem.
Inspeções em fábricas estrangeiras é uma praxe no mundo das importações de matéria-prima, mas nem sempre suprem o desejado. Para realizar todas as inspeções necessárias, a FDA gastaria U$255 milhões a mais, anualmente. Este ano ela gastará U$11 milhões.

Fico imaginando com deve ser no Brasil este processo de importação de insumos para saúde. Sinceramente não sei como é, mas eu que não procurei direito ou este tipo de história não interessa a imprensa? Contaminação por produtos importados é algo que nunca aconteceu por aqui? Porque do mesmo jeito que compramos iPods feitos na China, por ser bem mais “balatinho”, também o governo e as empresas compram seus insumos do gigante ex-adormecido. Mas se ele continua fechado da maneira como se mostrou no caso americano, que garantia teremos? Bom, sem querer bancar o hippie pedante, mas já o fazendo, eu digo: é o capitalismo selvagem.


Falando nisso, um adendo “acientífico”:
Em um texto de Slavoj Zizek no caderno Mais!, da Folha de domingo passado, ele fala de um ponto interessante sobre a China. Se economicamente ela der certo, não só ficará o mundo todo dependente dela, mas isto provará que o capitalismo não precisa da democracia para se sustentar. Esta era tida como condição para o capital, mas pode acabar se mostrado desnecessária pelo exemplo Chinês. Acho que a ditadura era assim, não?

Reportagem New York Times

24 abril 2008

Doze dicas científicas para potencializar seu cérebro


da revista Wired

É isso aí, nada de vitaminas ou meditação transcendental. Aqui vão dicas cientificamente comprovadas para dar uma melhorada no que temos de melhor (ou pior): nossa mente!

A revista Wired está de parabéns. Muito bacana este especial, que só foi traduzido e/ou adaptado por mim. O mérito é da revista, qualquer coisa a culpa é dela. E se ela pegar no meu pé, meus advogados estão a postos.

1- Mitos sobre inteligência:

- jogar Brain Age: este vídeo game promete aumentar as capacidades cognitivas de seus jogadores. Pena que nunca foi provado. A melhora do desempenho no jogo não necessariamente indica melhora fora dele.

- palavras-cruzadas: dizem que aumentam a capacidade de memória e retardam o envelhecimento do cérebro, estimulando novos neurônios. Nenhum dado que confirme isto. Existem indícios de correlação, não de causa: ou seja, quem faz palavra-cruzada ou tem um trabalho que exija mais da mente, já tem uma maior capacidade cerebral, que a atrai a fazer este tipo de atividade. Qual a palavra de quatro letras que significa “crença no senso comum, sem provas”? Quem disse “mito”, acertou.

- Comer peixe: ora, nossos amigos do mar têm muito Omega 3, que é importante para o desenvolvimento cerebral de embriões, e alguns estudos ligam a dieta rica em peixe a um menor risco de degeneração mental com a idade. Mas estes estudos se baseiam na boa memória das pessoas, para lembrarem o que comeram. Coisa não muito confiável. Em camundongos, dieta com Omega 3 não teve efeito nenhum na cognição. Outra coisa, peixes de água fria, que são os mais ricos em Omega 3, também têm taxas elevadas de duas neurotoxinas.

- Mascar chicletes: Já foram mandados nas rações de soldados da Primeira Guerra Mundial. Pensava-se que o ato de mascar aumentaria o fluxo de sangue no córtex motor e também poderia enganar o cérebro ao deixá-lo pronto para receber comida. Isto aumentaria produção de insulina, elevando os níveis de glicose cerebal – melhorando o raciocínio. Pena que um estudo feito em 2004 descobriu que mascadores de chiclete são menos atentos que um grupo controle sem chiclete. É, parece que meus professores na escola estavam certos: sem chiclete na sala de aula.

- Ouvir música: A música pode expandir a sua mente, mas pode ela também expandir a capacidade cerebral? Algumas empresas até vendem CDs prometendo melhorar esta capacidade; não com músicas, mas sons com diferentes freqüências em cada ouvido. Esses tons se misturariam no cérebro e dispararia padrões neurais, alterando ondas cerebrais que alterariam o estado da mente. Idéia interessante, mas menos provável que tirar pensamentos elevados de um show do Babado Novo. Uma pesquisa recente submeteu pessoas a essas freqüências, e o padrão do eletroencefalograma não mudou nada. Pior, as pessoas ficaram depressivas e esquecidas. Ora, para ter estes efeitos é só ouvir Celine Dion.

- Suplementos: O mercado está cheio de produtos que prometem melhorar a inteligência. Melhorar o suficiente para checar as bases científicas dessas promessas? Os vendedores de pílulas esperam que não. Aqui alguns exemplos:

Complexo B – Ajuda contra Alzheimer, mas não vai ajudar a resolver seu sudoku

Ginkgo Biloba – pode ajudar na velhice, mas até lá, não será muito útil

Ginseng – pode regular a glicose, a qual se relaciona com cognição, mas ainda não há prova

Gotu Kola – Reduz ansiedade em ratos, mas em humanos a única coisa “inteligente” é o marketing em cima disto

Huperzina A – um estudo mostrou melhora na saúde de adultos, mas faltam estudos adicionais

2- Distraia-se: precisa memorizar algo importante? Olhe atrás de você!(Brincadeira.) O truque é esse mesmo, se distrair estudando coisas um pouco diferentes do que você está tentando aprender. Seu cérebro vai trabalhar mais para gravar a informação original. Exemplo: Em 2007 pesquisadores pediram para estudantes memorizarem pares de palavras (país: Rússia, fruta: limão, etc). Depois alguns tinham que assistir a uma apresentação de slides com material relacionado, mas não idêntico (fruta: maçã). Adivinhe? Os alunos que assistiram à distração foram melhor em lembrar as palavras do teste. Ei, o que é aquilo no céu, um pássaro ou um avião?

3- Cafeína, com moderação: Café, erva mate, Red Bull, há sempre uma bebida com cafeína para cada população. E não é pra menos: cafeína revigora o corpo e afia a mente. Estudos sugerem a melhor forma de se usar esta substância. Melhor que tomar uma dose cavalar no café da manhã seria tomar espaçadamente pelo dia. Durante o dia sua cabeça se enche de adenosina, uma substância que causa fadiga mental. A cafeína bloqueia os receptores de adenosina, cortando a moleza. Para maximizar a atenção e minimizar a euforia, o melhor é manter os receptores com pequenas mas freqüentes doses, como uma caneca de chá ou meio cafezinho, ao invés de uma bomba só pela manhã. Para melhorar, adoce com açúcar ou coma junto um lanchinho com carboidrato, pois parece que glicose e cafeína juntas aumentam a cognição melhor que cada uma separadamente. Alguém aceita um biscoitinho?

4- Pense positivo: Aprender coisas novas melhora seu cérebro, especialmente quando você acredita que pode aprender coisas novas. É um circulo virtuoso: quando você acha que está ficando mais esperto você estuda mais, fazendo novas conexões neurais, as quais deixam você mais... inteligente! Segundo estudos da Universidade de Stanford, voluntários mais persistentes (que persistem na tarefa apesar de obstáculos) possuem uma maior plasticidade neural, ou seja, se adaptam melhor a situações diversas, e mostram melhor desempenho cognitivo que os voluntários de atitude mais fixa (defensivos ou que desistem mais rápido). “Muitas pessoas pensam que têm um nível de inteligência fixo e pronto,” diz Carol Dweck que conduziu o estudo. “A cura para isso é mudar de atitude.”

5- Use a droga certa: Nem toda droga usada para melhora de desempenho frita neurônios. Aqui você vai achar uma lista com drogas, seus efeitos esperados e efeitos colaterais possíveis. Como ninguém aqui é médico, você só pode estar alucinando se estiver pensando em usar estas coisas apenas se baseando neste artigo.




6- Como treinar seu Q.I.: Procurando emprego? É bom ir se preparando para um teste de Q.I., pois muitas empresas hoje em dia pedem este tipo de exame. E, sim, você pode treinar para melhorar sua pontuação. Aqui, você acha dicas de Philip Carter, autor do livro “IQ and Psychometric Test Workbook”, com alguns exemplos de questões.

7- Conheça seu cérebro: Sócrates o relacionava a uma tábua de cera. Descartes pensou ser hidráulico. Hoje em dia é visto como um supercomputador. Boas tentativas. O cérebro é uma das estruturas mais complexas do planeta, o que o faz quase impossível de se compreender, e muito menos ser descrito com uma metáfora. Aqui e aqui vão alguns mapas para melhor compreensão deste órgão.

8- Não entre em pânico: Se estiver fugindo de um urso, é bom estar estressado – você vai correr mais rápido. Se estiver no Show do Milhão, a mesma ansiedade vai fazer você se enrolar todo. Um pouco de nervosismo pode melhorar sua performance cognitiva, mas períodos de estresse intenso podem nos transformar em neandertais. A amídala (a do cérebro, pois as da garganta só servem para infeccionar), é o nosso centro que controla o medo, e sempre supera o córtex pré-frontal, o qual é responsável pela memória de trabalho e tomada de decisão. Quando essa área profunda de nosso cérebro (amídala) é ativada, ela subjuga seus neurônios do córtex. Seu QI cai. Sua criatividade, senso de humor – tudo desaparece. Você fica estúpido. Como evitar isto? Respire fundo, e sincronize seu pulso com sua respiração. Assim seu cérebro vai pensar que está tudo mais calmo. Yoga ou uma soneca podem resolver também.

9- Adote o caos para ordenar sua memória: Uma maneira de aprender melhor é... bagunçar tudo! Esse é o conselho de Robert Bjork, professor de psicologia da universidade da Califórnia, que estudo memória e aprendizado. Voluntários em seus experimentos mostraram melhor capacidade de recordar informação quando aprendida de maneira embaralhada. Por exemplo, ele pediu que indivíduos em um grupo memorizassem sequencias de cinco letras num teclado de computador. Primeiro eles decoravam uma sequencia, só então mudavam para a segunda e em seguida para a terceira. Eles foram comparados com um segundo grupo, que decorou os conjuntos de cinco letras em ordem aleatória. Quando foram testados, o grupo da ordem aleatória teve melhor desempenho.

10- Seja visual: quer impressionar seus colegas localizando Guiné e Guiné Equatorial? Memorizar o mapa da África é mais fácil do que você pensa. As dicas são: separe o continente por regiões; ligue cada país e seu formato a outra figura de formato parecido, de preferência que também se relacione ao nome do país; relacione as figuras dos países vizinhos, montando uma historinha, e assim por diante. Agora, achar uma história para Azerbaijão e Uzbequistão, isso fica por sua conta.

11- Exercite-se sabiamente: Exercício físico pode fazer você pensar melhor? Em alguns casos, sim. Aqui está o que realmente funciona.

- Treino aeróbico: SIM. Estudos mostram aumento de massa cinzenta e branca em cérebros de adultos mais velhos. Também aumenta a performance de alunos de faculdade em testes cognitivos.

- Levantar pesos: IRRELEVANTE. Quando um halterofilista diz q está ficando imenso, pode ter certeza que não está falando do hipocampo. Foi achada uma ligação mínima entre treinos de resistência e função cognitiva.

- Yoga: SIM. Quando estamos estressados muitas vezes prendemos a respiração. Resultado: mais estresse, menos oxigênio para o cérebro. Assim a primeira coisa que se perde é a memória. A Yoga ajuda a perder este hábito.

- Estudar na esteira: IRRELEVANTE. Aulas de spinning podem aumentar seu “músculo” cerebral, mas não significa que você deva estudar enquanto estiver bufando e suando na esteira. Pesquisas mostram que isso só irá confundi-lo. Você acaba não fazendo bem nem uma coisa, nem outra.

12- Vá devagar: você deve levar dois segundos e meio para ler esta frase. Mais rápido que isto e você não absorverá seu significado. A resposta motora da retina, e o tempo que a imagem da palavra leva para viajar da mácula para o tálamo e para o córtex visual, onde é processado, limita o olho a 500 palavras por minuto, no máximo. A média lê metade disto. “Não existe esse tipo de leitura dinâmica,” é o que diz Keith Rayner, psicólogo cognitivo da universidade de Massachusetts-Amherst. “Não existe se a nossa definição de leitura for compreensão do texto.” Estudos mostram que leitores rápidos perdem para leitores lentos quando questionados sobre o texto.

15 abril 2008

Células-tronco embrionárias: o que acontece na Alemanha.

É sempre bom saber como essas questões são tratadas pelo mundo. Aqui um apanhado da situação das células embrionárias na Alemanha, pela agência de notícia Deutsche Welle


Bundestag (Câmara dos Deputados) autoriza cientistas alemães a trabalhar com linhas de células-tronco embrionárias mais novas e de melhor qualidade. Igreja Católica critica a decisão.

Alguns cientistas e políticos alemães consideram ultrapassada a lei que restringe o uso de células-tronco embrionárias na pesquisa científica, mas opositores de uma reforma da lei temem abuso de embriões humanos. (13.02.2008)

Em um gesto favorável aos pesquisadores alemães, o Conselho Nacional de Ética recomendou a flexibilização das restrições legais para que cientistas do país possam realizar pesquisas com células-tronco. (17.07.2007)

O que é feito da dignidade humana, na era da engenharia genética? É possível saber "demais"? A DW-WORLD conversou com Wolfgang van den Daele, do Conselho de Ética da Alemanha. (09.12.2005)

11 abril 2008

Deu na Nature: Prontos ou não, lá vêm os testes genéticos.

do original "Ready or not", Nature

Prontos ou não, os testes genéticos comerciais chegaram pra ficar.Várias empresas já vendem kits que permitem coleta e seqüenciamento de trechos do DNA do cliente para calcular risco de doenças como diabetes, câncer ou Alzheimer. Isto tem levantado preocupações. Afinal, os clientes estão cientes do que significa esse risco? Como manter os clientes atualizados com as novas pesquisas que irão refinar cada vez mais estes cálculos? Quem irá regularizar este novo mercado?

Os clientes potenciais destes testes devem ter conhecimento elevado sobre a biologia envolvida neste processo para poder tirar proveito desta informação, e as empresas devem se comprometer a manter estes clientes informados dos avanços nos estudos genéticos relacionados aos testes. Claro que deverá haver uma regulação, e talvez mínima já seja o sufuciente, como a que é feita hoje em dia em outros testes e exames, como os de ressonância magnética.
Mas este sistema só funcionará se também os pesquisadores desta área estiverem dispostos a tomar parte da responsabilidade desta revolução, agindo quando necessário para evitar abusos e enganos.

02 abril 2008

Comentando: Pesquisa mostra o câncer como doença gerenciável dentro de dez anos


RAFAEL GARCIA
da Folha de S. Paulo

Dentro de dez a quinze anos, provavelmente ainda não haverá algo que possa ser chamado de uma cura para todos os tipos de câncer, mas esta será uma doença "administrável". É a opinião do oncologista Júri Gelovani, do Centro M.D. Anderson de pesquisa contra o câncer, da Universidade do Texas.
"Provavelmente, no futuro, nós converteremos o câncer em uma doença que poderemos detectar cedo e que possamos administrar, da mesma forma que administramos hipertensão, diabetes e epilepsia", disse Gelovani à Folha. "Deixaria de ser uma doença que chamarmos de 'grave' para se tornar gerenciável."


Devo concordar com o doutor Júri Gelovani. Curar parece impossível, mas administrar sim é um objetivo que me parece muito bom e mais factível.
Porque a cura seria impossível? Primeiro que o câncer não é uma doença só, mas várias. Suas características dependem do tecido em que se inicia e das mutações que o geraram. Caímos aqui no fatídico clichê “cada caso é um caso” (e vice-versa, como algum piadista diria).

Mesmo assim isto torna a doença difícil mas não impossível de ser curada. O principal problema do câncer é que ele é uma falha em um mecanismo muito importante na vida de uma célula: o seu próprio ciclo de vida. O tratamento ou prevenção ideal para o câncer seria o envelhecimento precoce ou a morte, pois são nestes dois casos que as células não estão se duplicando. Mas enquanto houver reprodução celular, com replicação (duplicação) de DNA, haverá chance de erro (mutação), o que uma hora ou outra dentro de um organismo com milhares de milhões de células vai acontecer. Ou seja, se tudo der certo na sua vida, nenhum acidente ou ataque cardíaco, provavelmente haverá um câncer.

Mas não é tempo de desespero. É isso que o doutor da reportagem prevê e que em parte já é uma realidade. Não se pode dar 100% de certeza de cura para alguém, mas temos métodos diagnósticos e tratamentos que estão se desenvolvendo cada vez mais, o que permite tratamento eficaz nos primeiros momentos da manifestação de cada tumor. Quantas pessoas já tiveram câncer várias vezes e estão firmes por aí? A questão é tornar o tratamento mais leve, com menos efeitos colaterais e ação mais específica. Quem sabe então o câncer deixará de meter tanto medo.

01 abril 2008

Doping cerebral

Muito tem se falado na mídia internacional sobre estimulantes cognitivos, os chamados nootrópicos, ou “smart drugs”. Seu uso sempre foi muito intenso entre estudantes de faculdade por muito tempo, e agora começam a migrar para outras realidades, onde são necessários longos períodos de intenso foco mental, se incluem aí laboratórios de pesquisa científica. Aqui um artigo recente no New York Times.
Até agora nenhum pesquisador teve sua bolsa revistada ou sua urina coletada, mas mesmo assim a preocupação que tem surgido sugere que uma moda de drogas para aumento da cognição tenha inicio em não muito tempo.

“Apesar dos potenciais efeitos colaterais, acadêmicos, músicos, executivos, estudantes e até profissonais de pôquer têm usado drogas para clarear suas mentes, melhorar sua concentração e controlar suas emoções.”-Baltimore Sun.



O problema está ficando tão sério que existe até uma organização anti-doping cerebral: World Anti-Brain Doping Authority, que ajuda federações a implementar testes de detecção destas drogas, mantém uma lista de substâncias proibidas para uso por acadêmicos e mantém também um código com regras anti-doping. Até mesmo o NIH (Instituto Nacional de Saúde dos EUA, principal órgão financiador de pesquisa de lá) irá adotar tais medidas em colaboração com a World Anti-Brain Doping Authority. Isso inclui testes anti-doping em pesquisadores financiados pelo instituto, tanto no ato da validação do pedido de verba, como a qualquer momento enquanto durar o projeto financiado.


Mas pensemos na diferença do doping esportivo e o intelectual, o que seria importante já que o primeiro parece estar servindo de base para lidar com o segundo. No esporte o que se busca é a paridade, a igualdade na competição. Numa atividade intelectual, a finalidade pode ser mais diversa e talvez mais justificável. Claro que em ocasiões competitivas como vestibulares e concursos o melhor a se fazer seria controlar o uso de drogas como se faz com atletas. Mas fora esta situação, ponderando-se os efeitos colaterais, não há porque impedir o uso de drogas por pesquisadores, músicos e executivos. Claro que todos devem ser alertados, e bem, com relação aos efeitos colaterais, mas onde não há competição cabe a cada um escolher até que limite quer levar seu corpo. Virar noites trabalhando uma vez que esteja empolgado com resultados de sua pesquisa pode ser uma justificativa, e tomar uma pílula para manter a atenção com poucos efeitos colaterais não parece mau negócio.


Poderíamos abrir precedentes e cair na discussão das drogas ilícitas, já que o argumento que usei aqui poderia justificar o uso de drogas como maconha ou extasy. O problema é que a sociedade quer se proteger dessas drogas que alteram em muito o estado de uma pessoa o que pode trazer riscos a outras pessoas. E ainda temos as “drogas” como cafeína e álcool, que vêem agindo como doping intelectual há séculos. Isto tudo só prova que a humanidade ainda não aprendeu a lidar com este assunto.
E logo mais proibirão café, música durante o trabalho e noites viradas no laboratório?


No caso dos cientistas o que está em jogo não é uma querela olímpica vã. Para desenvolver a Ciência, como a ferramenta que ela é para melhor entendermos o mundo, talvez valha tudo sim! Tudo que o pesquisador estiver disposto a fazer por livre e espontânea vontade, levando seu próprio corpo até onde lhe parecer melhor.


Via A Blog Around the Clock

22 dezembro 2007

Revista lista sete mitos da medicina que enganam até médicos

Do G1, em São Paulo

“Às vezes, até os médicos se enganam”, dizem os pesquisadores ingleses Rachel C. Vreeman e Aaron E. Carroll em artigo publicado neste fim de semana no "British Medical Journal", na Inglaterra. Segundo o estudo, muitos dos médicos sabem que precisam atualizar seu conhecimento com freqüência, mas acabam não questionando algumas crenças populares relacionadas à saúde.

Os principais mitos são:

As pessoas devem beber pelo menos oito copos de água por dia
“Não existe nenhuma evidencia médica para sugerir essa quantidade específica”, diz o artigo. Segundo os pesquisadores, o mito pode ter surgido em 1945, depois que o Conselho de Nutrição da Inglaterra passou a recomendar oito copos de "fluidos" por dia. A diferença é que esses fluidos incluíam frutas, vegetais, café, leite e outros líquidos. O estudo lembra que o excesso de água pode ser perigoso.

Apenas 10% do cérebro é usado
Normalmente creditada de forma errônea a Albert Einstein, a crença provavelmente surgiu no início do século 20, quando as pessoas queriam incentivar a população a atingir todo seu potencial. Mas ela está longe da verdade segundo estudos recentes. Pesquisas que analisam imagens do cérebro e o metabolismo das células cerebrais apontam para a inexistência de áreas inativas no cérebro.

Cabelo e unhas continuam crescendo após a morte
Impossível. O que acontece, segundo os pesquisadores, é que a pele da pessoa morta se resseca e encolhe, o que faz com que unhas e cabelos fiquem mais proeminentes.

Raspar a cabeça faz o cabelo crescer mais rápido, mais escuro e menos liso
“Fortes evidências científicas negam esta crença”, diz o artigo do British Medical Journal. Um estudo realizado em 1928 de fato comparou o formato de cabelo raspado com o cabelo não-raspado para concluir que ele não cresce mais rápido, nem mais grosso. Os pesquisadores dizem que a aparência de ser mais escuro se dá porque o cabelo mais recente ainda não perdeu cor, o que acontece naturalmente com o tempo.

Ler com pouca luz estraga a visão
É verdade que ler com pouca luz cansa a visão, e pode diminuir temporariamente sua capacidade, mas nenhum estudo encontrou danos permanentes por causa disso.

Comer peru deixa as pessoas sonolentas
O estudo reconhece que muitas vezes as pessoas comem peru e se sentem dessa forma, mas dizem que isso se dá pelo fato de a ave ser normalmente consumida em grandes banquetes e festas, especialmente de fim de ano, acompanhado e álcool e outras substâncias que podem causar sono. O estudo admite que o peru tem triptofano, substância química envolvida no controle do sono, mas diz que a ave tem tanto dela quanto galinhas e mesmo carnes vermelhas.

Celulares podem causar interferência em hospitais
Nenhuma morte foi registrada até agora por causa de interferência de celulares em equipamentos hospitalares, mas de fato já foram reportadas interferências menores e menos sérias. A pesquisa aponta, entretanto, que o uso de celulares pelos médicos melhora o fluxo de comunicação e pode ajudar em seu trabalho de tratar os pacientes.

30 março 2007

Com dinheiro e saúde não se brinca.

Em notícia recente, foi divulgado que uma nova droga está funcionando muito bem para o tratamento de câncer, reduzindo em até 75% o tamanho dos tumores em apenas 3 semanas. O que mais chama atenção na noticia, porém, é o fato de que alguém está vendendo esta droga pela Internet. E se ela funciona, qual o problema de comercializá-la, não é mesmo? O problema é que ela ainda não foi testada em humanos!

Não vou discutir a droga em questão na notícia, mas quem trabalha com pesquisa em câncer sabe que existem mil-e-uma substâncias e/ou técnicas que podem reduzir tumores nessa proporção. Mas isto em ratos. Mexer com gente complica um pouco as coisas. Ratos e humanos têm diferenças que não podem ser esquecidas. Primeiro que suas fisiologias não são idênticas, ou seja, o que funciona em um pode não funcionar no outro. Aliás, pode funcionar bem mal. Segundo que homens têm algo que os ratos não têm: advogados. Pessoas que em seu desespero compram um medicamento pela Internet sem a opinião de um médico podem ser as mesmas que processarão uma industria farmacêutica, caso seu antiinflamatório lhes cause um enfarte (caso que ocorreu com o Vioxx).

Um medicamento, para chegar às farmácias, tem que passar por testes e mais testes. São os chamados testes clínicos. Inicialmente uma droga nova é testada em ratos, depois em macacos e aí então se parte para humanos. Começam os testes com no máximo 100 pessoas, não para ver se a droga funciona, mas para ver se a droga não tem nenhum efeito colateral. Acompanha-se de perto os pacientes por um bom tempo até se ter certeza que está tudo bem. Então se passa para mais 1000 pessoas. Ainda aqui o objetivo não é testar a eficiência da droga, mas sim a sua segurança. Após o acompanhamento destes pacientes é que se passa para a outra etapa com mais umas 10 mil pessoas, quando será avaliada a segurança e a eficácia da substância.

Todo esse esforço, tempo e dinheiro se justificam, pois é a segurança dos doentes/consumidores que está em jogo. Além, é claro, da segurança financeira das industrias farmacêuticas. E todos sabem que com dinheiro e saúde não se brinca.
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