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13 agosto 2008

Livro "Genes contra doenças" promete explicar terapia gênica


Ainda não li, confesso. Mas assino embaixo pela confiança no autor. O Rafael Linden entende do assunto de terapia gênica. Só não entende mais disso do que de morte celular programada, sua especialidade. Enfim, o livro fala sobre a terapia gênica (área em que meu laboratório atua) de forma palatável para não-especialistas.

"O princípio da terapia gênica é relativamente simples: introduzir no organismo de uma pessoa doente, com uso da técnica de DNA recombinante, um gene sadio responsável por codificar uma proteína que terá um efeito terapêutico. No livro, que inclui um glossário, procurei definir todos os termos técnicos da forma mais clara possível", disse à Agência FAPESP.


Afinal, por que usar remédios, que nada mais são que proteínas na maior parte dos casos, se nós poderíamos fazer as próprias células do paciente produzirem a proteína para o tratamento?

Como a coisa também não é tão fácil assim, as pesquisas continuam (ainda bem, porque é o que garante a minha bolsa).

Assim que eu ler o livro conto o que achei. E, apesar de conhecer a propriedade do autor neste tema, não duvide que tentarei criticá-lo com justeza.

01 março 2008

Células-tronco: votação, bastidores e conspiração

Está chegando o grande dia da votação da lei de Biosegurança que vai autorizar ou não o uso de embriões para pesquisas. Claro que a mídia está atenta a isso. Aqui está uma reportagem do Bom Dia Brasil da Globo, que foi ao ar recentemente. Muitos cientistas já velhos conhecidos da mídia apareceram: Mayana Zatz e Luis Gowdak (por sinal esta parte foi gravada no laboratório em que trabalho no INCOR), por exemplo.
O que chama atenção é a presença de uma ilustre desconhecida para mim e meu colegas de laboratório: Dra. Lilian Piñero Eça. E chama mais atenção ainda por falar de maneira pejorativa sobre células-tronco embrionárias. Dizendo que se forem injetadas em pessoas para tratamento de doenças elas podem gerar rejeição e tumores.


Bem, isso é verdade, mas o fato é que ninguém pensa em simplesmente injetar células-tronco de um embrião numa pessoa como tratamento! O que se quer é estudar a biologia de células-tronco para, a partir deste conhecimento, se pensar em tratamentos.
Mas como uma cientista pode ter falado algo tão impreciso e tendencioso num momento de tomada de decisão tão delicado como este? Simples: ela não é uma cientista.

Existe uma ferramenta online muito interessante, se chama Plataforma Lattes, e é onde qualquer um pode achar o currículo de todos os pesquisadores brasileiros ou que trabalham aqui. Vejam o currículo da tal Lilian . Como ponderar se um pesquisador é bom ou não? A primeira coisa que se olha é o número de publicações em periódicos, das quais Lilian Piñero Eça não possui nenhuma!

Mas por que raios alguém entrevistaria uma pessoa sem formação apropriada? Dois motivos: 1-jornalistas não conhecem a plataforma Lattes, e 2- Lilian foi a pesquisadora responsável pela orientação da abertura da Ação Direta da Inconstitucionalidade da Lei da Biossegurança - ADIN, em maio de 2006 a pedido do procurador geral da República Dr. Claudio Fonteles. Ou seja, foi ela quem “orientou” cientificamente a proibição do uso de células-tronco embrionárias em 2006.

E como alguém sem peso científico algum pode ser orientadora científica de uma ação política tão importante? Veja esta matéria reveladora de Dário Ferreira em seu blog (as opiniões da referência não refletem inteiramete as minha opiniões). Conspiração? Estaria a Igreja trabalhando nos bastidores usando Lilian como testa-de-ferro? Afinal, é estranho alguém trabalhando com células-tronco receber tantas menções de religiosos,posar para foto na defesa de tese e até receber prêmios da CNBB (Congregação Nacional dos Bispos do Brasil), como vemos também em seu currículo.
Nada contra a Igreja tentar colocar seu posicionamento na questão e usar cientistas que apóiem sua visão, desde que este apoio seja às claras e eles sejam cientistas de verdade!

Seja lá como for o estrago, se houve, já está feito. Quarta-feira a lei será votada e será definitiva sua decisão.
Está aí a importância de se transpor o conhecimento científico para os não cientistas. Afinal muitos deles são jornalistas ou importantes tomadores de decisão, e eles têm uma influência direta na pesquisa como estamos vendo com o caso das células-tronco.

24 janeiro 2008

“Eu sou a lenda” e o deserto do real

Um motivo inusitado me levou ao cinema esta semana. Não que eu não vá ao cinema regularmente, apenas o motivo desta vez foi diferente.

O filme "Eu Sou a Lenda" com Will Smith é um bom filme de entretenimento. Divertido, ele abusa de uma fantasia recorrente nas pessoas: e se somente eu sobrasse no mundo? Eu prometo não contar o final nem muitos detalhes do filme, apenas algumas coisas que aparecem bem no começo. O que se revela logo no inicio do filme é justamente o meu motivo especial. Uma entrevista com uma cientista falando que usando um vírus modificado foram capazes de curar o câncer. A metáfora usada é até bem feliz: imagine que o seu corpo é uma estrada, e um vírus um carro muito veloz com um motorista muito mau. Agora imagine que substituímos o motorista mau por um policial. Bom, isto não é pura ficção. Aliás, é com isso que eu trabalho no dia-a-dia. Trocando quem está por trás da direção do vírus.


O que nós fazemos é trocar alguns pedaços do DNA do vírus por outros que podem matar as células de câncer. É isso que chamamos de Terapia Gênica. Usamos genes, que são trechos de informação de DNA, ao invés de remédios comuns. As vantagens? Ao invés de tomar um remédio, que pode se espalhar pelo corpo todo, um vírus pode carregar o "gene-remédio" para apenas algumas células específicas, como as de câncer por exemplo. Claro que a história não é assim tão simples. Podemos usar vários vírus, e manipulá-los de diversas maneiras. E os focos sempre são dois: eficácia no tratamento e segurança. A principal preocupação é evitar que o vírus que usamos, que pode ser derivado da gripe, por exemplo, cause uma infecção de gripe. O que fazemos é tirar todo o DNA possível do vírus original.



Esses vírus são tão seguros que até mesmo vírus derivados do HIV são usados, pois eles não possuem a informação que o permite infectar as células a sua maneira. Mesmo alguns vírus já sendo tão seguros ainda não são usados amplamente na medicina. Simplesmente por se tratar de um organismo estranho ao corpo humano, os cuidados são redobrados, e as agências reguladoras das pesquisas são muito conservadoras, e com razão, nesse tipo de assunto. Muitos estudos em humanos estão sendo feitos, e estes pacientes devem ser observados por muito tempo para nos assegurarmos de que é seguro.


Até aqui só falamos da primeira cena do filme e o seu paralelo na realidade. Agora vem a segunda cena: a cidade de Nova Iorque totalmente abandonada, varrida por uma epidemia deste vírus apenas três anos após a fictícia entrevista da cientista. Não se explica o que aconteceu de maneira clara. Parece que o vírus sofreu uma alteração aleatória que o transformou em um matador transmitido pelo ar.


Isso me faz perguntar se as pessoas que assistem a este tipo de filme se impressionam com as informações "científicas" a ponto de a usarem como base para seus julgamentos. Gente falando, por exemplo, "aquele filme mostra como a ciência pode ser destrutiva." Como o espectador pode saber até que ponto a informação do filme tem base no real (terapia gênica é real) ou é imaginação pura (o vírus usado na terapia não pode ser mais perigoso que o vírus que o originou). Este filme faz um serviço de divulgação científica ou um desserviço ao dar uma perspectiva catastrófica?


Não quero ser o chato a censurar a arte pelo rigor científico. O que me preocupa é a falta de conhecimento básico sobre ciência na população. Não que todos precisem de conhecimentos em biologia molecular, mas o pensamento crítico, tão característico da ciência, seria de grande ajuda para qualquer um poder interpretar a arte e a vida real de maneira mais profunda e proveitosa.