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26 junho 2008

Magia e crença no laboratório


Olhando esta imagem aqui em cima eu parei pra pensar se existe magia num laboratório. Não que ela exista, mas as vezes parece existir. Existe no como nós trabalhamos no lab. Muita coisa parte da fé. Nenhum ser humano já viu uma base de DNA, um A,T, C, ou G. Mas temos fitas de DNA desenhadas por todo o lado e trabalhamos com isso. Temos um tubo com DNA, e só o que se vê é a mais pura e clara água. Mas a máquina quantificadora nos diz: esta água contém 200 nanogramas de DNA por mL. Para cortar este DNA usamos enzimas que, pelo catálogo da empresa que a produz, irá cortar a dupla-fita no local exato. Montamos a reação e TCHA-NÂÂÂ... a mesma aguinha "sem nada dentro". Mas quando adcionamos o reagente certo (brometo de etídio) vemos uma florescência. Algo brilha. É o DNA que prendeu o brometo. Pelo menos é o que me disseram...

Sempre vemos as coisas de forma indireta, pela máquina, pelo brilho, pela reação com outra coisa. Mesmo no dia a dia normal é assim. Mas no lab a coisa fica bem mais evidente. Esse é o "dia a dia", fazer acontecer sem enxergar, ouvir ou tocar.

Mas a coisa não pode ficar na fé. O pesquisador que não sabe porque o DNA brilha quando adiciona-se o reagente brometo, esta sendo crente no protocolo. Acaba agindo cegamente. Tem acontecido muito hoje em dia. As pessoas que entram no lab não questionam o "porquê das coisas funcionarem assim". Querem um kit pronto e acabou.

Isso pode indicar duas coisas preocupantes: falta de curiosidade e/ou falta de pensamento crítico. Sendo que nenhuma delas pode faltar num pesquisador, justamente por serem as PRINCIPAIS características de um cientista.

01 abril 2008

Doping cerebral

Muito tem se falado na mídia internacional sobre estimulantes cognitivos, os chamados nootrópicos, ou “smart drugs”. Seu uso sempre foi muito intenso entre estudantes de faculdade por muito tempo, e agora começam a migrar para outras realidades, onde são necessários longos períodos de intenso foco mental, se incluem aí laboratórios de pesquisa científica. Aqui um artigo recente no New York Times.
Até agora nenhum pesquisador teve sua bolsa revistada ou sua urina coletada, mas mesmo assim a preocupação que tem surgido sugere que uma moda de drogas para aumento da cognição tenha inicio em não muito tempo.

“Apesar dos potenciais efeitos colaterais, acadêmicos, músicos, executivos, estudantes e até profissonais de pôquer têm usado drogas para clarear suas mentes, melhorar sua concentração e controlar suas emoções.”-Baltimore Sun.



O problema está ficando tão sério que existe até uma organização anti-doping cerebral: World Anti-Brain Doping Authority, que ajuda federações a implementar testes de detecção destas drogas, mantém uma lista de substâncias proibidas para uso por acadêmicos e mantém também um código com regras anti-doping. Até mesmo o NIH (Instituto Nacional de Saúde dos EUA, principal órgão financiador de pesquisa de lá) irá adotar tais medidas em colaboração com a World Anti-Brain Doping Authority. Isso inclui testes anti-doping em pesquisadores financiados pelo instituto, tanto no ato da validação do pedido de verba, como a qualquer momento enquanto durar o projeto financiado.


Mas pensemos na diferença do doping esportivo e o intelectual, o que seria importante já que o primeiro parece estar servindo de base para lidar com o segundo. No esporte o que se busca é a paridade, a igualdade na competição. Numa atividade intelectual, a finalidade pode ser mais diversa e talvez mais justificável. Claro que em ocasiões competitivas como vestibulares e concursos o melhor a se fazer seria controlar o uso de drogas como se faz com atletas. Mas fora esta situação, ponderando-se os efeitos colaterais, não há porque impedir o uso de drogas por pesquisadores, músicos e executivos. Claro que todos devem ser alertados, e bem, com relação aos efeitos colaterais, mas onde não há competição cabe a cada um escolher até que limite quer levar seu corpo. Virar noites trabalhando uma vez que esteja empolgado com resultados de sua pesquisa pode ser uma justificativa, e tomar uma pílula para manter a atenção com poucos efeitos colaterais não parece mau negócio.


Poderíamos abrir precedentes e cair na discussão das drogas ilícitas, já que o argumento que usei aqui poderia justificar o uso de drogas como maconha ou extasy. O problema é que a sociedade quer se proteger dessas drogas que alteram em muito o estado de uma pessoa o que pode trazer riscos a outras pessoas. E ainda temos as “drogas” como cafeína e álcool, que vêem agindo como doping intelectual há séculos. Isto tudo só prova que a humanidade ainda não aprendeu a lidar com este assunto.
E logo mais proibirão café, música durante o trabalho e noites viradas no laboratório?


No caso dos cientistas o que está em jogo não é uma querela olímpica vã. Para desenvolver a Ciência, como a ferramenta que ela é para melhor entendermos o mundo, talvez valha tudo sim! Tudo que o pesquisador estiver disposto a fazer por livre e espontânea vontade, levando seu próprio corpo até onde lhe parecer melhor.


Via A Blog Around the Clock

15 fevereiro 2008

Bebida diminui produção de pesquisadores


É do país mais beberrão do mundo que vem este estudo bombástico: o consumo de bebida alcoólica dos pesquisadores está relacionado com a quantidade e qualidade da sua produção científica. Quanto mais doses um pesquisador bebe por semana, menor será sua produção.

Este estudo foi realizado na República Tcheca talvez não por coincidência, afinal este é o país com maior consumo de cerveja do mundo. São 156,9 litros de cerveja por pessoa num ano.

Claro que não devemos ser alarmistas. O estudo é pequeno, foi realizado somente em um país, com pesquisadores de apenas um tema (evolução, ecologia e comportamento de aves). Mas ao comparar pesquisadores de diferentes regiões da Republica Tcheca, a famosa Bohemia, mais beberrona (200 litros por pessoa no ano), e a Moravia, mais moderada (35 litros), houve diferença significativa na produção destes pesquisadores.

Em estudos com estas abordagens sempre temos que ter cautela na interpretação. A bebida tem diferentes significados em cada cultura. Também o consumo é realizado de diferentes maneiras, pode ser um ato social ou solitário, pode ser bem ou mal visto pela sociedade. Assim também a ciência é realizada de maneiras diferentes. Não nos seus métodos (que se forem diferentes deixam de ser ciência), mas na sua dinâmica, financiamento, organização hierárquica, relação inter-pares, etc.

A quantidade e qualidade da produção científica são as principais medidas de sucesso de um pesquisador. Disso vai depender o status e o emprego do cientista. Saber que esses fatores sociais, comportamentais e psicológicos estão diretamente relacionados à sua produção é importante. E quem não é pesquisador precisa ter isto em mente também. Saber que a ciência é uma atividade humana como tantas outras, e está sempre sendo influenciada por esses fatores.

Tomas Grim - "A possible role of social activity to explain differences in publication output among ecologists" - Oikos, 2008


Aqui vai um brinde pra quem não liga pra esse tipo de pesquisa:

04 dezembro 2007

Carreira em Ciências Biológicas em ascensão?!

Ouvi dizer que uma pesquisa feita pela Folha indicou as carreiras em ascensão no Brasil. Qual não foi minha surpresa ao perceber que Ciências Biológicas foi citada!

Ciências biológicas compreenderia Biologia, Medicina, Ciências agrarias, Engenharia Florestal, etc... Provavelmente todas estas estão inclusas, porque só a boa e velha biologia não consegue segurar essa pressão. Afinal desde os anos da minha graduação, começada em 2000, a biologia é a "ciência do futuro". O problema é que este futuro nunca chega. Os biólogos que estão sendo absorvidos pelo mercado são os que trabalham com Estudos de Impacto Ambiental na sua maioria. De resto sobram duas opções para o recém-formado: dar aulas ou pós-graduação.


Aulas não têm brotado como nos foi prometido pelo mercado. E a pós-graduação se torna uma opção para poucos que conseguem entrar em boas faculdades que possuam centros de pesquisa. Mesmo estes poucos pós-graduandos têm poucas garantias de absorção pelo mercado. Uma barreira que parece intransponível é a do final do doutorado. O que fazer depois? Realmente há pesquisa de ponta sendo realizada no país, mas há empresas de ponta para empregar este conhecimento e esta mão-de-obra extremamente especializada? O formado novamente se depara com a opção de dar aulas e com as promessas de absorção pelas várias faculdades particulares que abrem a todo instante no país. Mas histórias de doutores ou pós-doutores mandados embora de faculdades por serem qualificados demais têm me deixado um pouco descrente.

Agora, se as carreiras em Ciências Biológicas estão em ascensão deve ser mesmo por englobar várias disciplinas além da jovem e eternamente promissora Biologia.